É sempre difícil precisar a origem de um determinado território e definir a sua cultura primitiva. Quanto mais longínquo pretendemos chegar no tempo, mais carregado de incertezas será o resultado e frágil o conteúdo de qualquer tese que se apresente.
Pelos vestígios, achados, estudos e correlações com os nossos vizinhos, podemos aferir de determinadas suposições e deduzir algumas convicções acerca da comunidade(s) onde teríamos estado inseridos.
Atendendo aos dados já veiculados, pelo estudo e considerando algumas evidências, as características que são de determinada civilização; podemos afirmar com alguma certeza a presença dos romanos, nestas paragens.
Considerando a organização territorial dos Romanos, este território de Melres, que já foi Concelho, e que foi inicialmente a Villa de Mellares; pertenceu a uma grande província romana, que englobava a Península Ibérica (para os romanos Hispânia), e mais tarde por volta de 120 d.C., compreendia apenas a Lusitânia.
A presença dos romanos começou em 127 a C. e manteve-se até à chegada dos Bárbaros. Depois vieram os Visigodos e a seguir os Árabes.
O objectivo principal desta explanação é o de abordar o período que se seguiu à época Árabe e se aproximou da criação do Condado Portucalense; ou seja, a um período entre o século VIII e XI, altura a partir da qual aparece a Carta da Villa de Mellares (em 18 Maio de 951).
Em vários documentos, e várias vezes referido em monografias dos Concelhos vizinhos, aparece inúmeras vezes referido o “territorium” de ANÉGIA.
É curioso o nome ANÉGIA, aparece como cidade ou terra, tendo significados duvidosos, mas no entanto citado inúmero vezes, deixando as pessoas estupefactas por não haver memória, ou algo que se ligue a este nome de forma directa.
Num contexto mais alargado e atendendo às facilidades de identificação e ligações de estabilidade territorial e até cultural, teríamos os territórios de Portucale, Lamego; Santa Maria (da Feira) e Anégia, nesta quadratura.
No que concerne aos limites do “territorium” de ANÉGIA, eles estariam compreendidos entre as terras altas (superiores) do Rio Ferreira até se ligar ao Rio Sousa, abrangendo todo o vale do Sousa e do Tâmega, passando o Rio Douro até metade das terras de Paiva. Portanto estendia-se geograficamente por uma área bastante grande, que ficaria aquém do Douro e para além do Douro (no sentido Sul).
Pelo que se descreveu e pelo que se sabe de algumas monografias, é atribuído a este território, um centro provável em Entre-os-Rios (freguesia da Eja), com uma fundamentação que ainda oferece dúvidas e pouco convincente. Pelo menos o que confirma, ou dá cobertura a esta tese, deixa algumas dúvidas de interpretação.
As dúvidas advêm, ou surgem, pelo facto da Civitas de Anégia se situar junto ao Rio Douro. Num documento sobre os termos de Crestuma, a determinado parágrafo refere: «E deu-lhes o mesmo rei e a sua comitiva a navegação e portagem do rio Douro, no dia de Sábado, do porto de qualquer rio e por todos os seus portos até à Foz do rio Douro... E no mesmo concílio deu Lucidio Vimarano Vilas e Igrejas ao mesmo mosteiro na margem do rio Douro, desde o porto da Cidade de Anégia...»
A quase totalidade das propriedades referidas neste documento, parece implícito que se situam na margem sul do rio Douro.
Segundo este autor: «ANÉGIA, que aparece em bastantes documentos desde os séculos IX ao XI, alterou-se, mais tarde, para o nome Areja, povoação que, presentemente, faz parte da freguesia da Lomba...neste documento, vem referida como Cidade, porém, actualmente, é uma simples povoação com cerca de 80 fogos».
Efectivamente este documento não pode referir-se a Anégia como Eja (Entre-os-Rios), porque a freguesia de Santa Maria da Eja, naqueles tempos não confinava com o rio Douro, não ficava na margem deste rio; nem tinha, portanto qualquer porto e ainda ficava a norte do referido rio Douro.
A freguesia que estava na zona ribeirinha, apesar de mais pequena, era a de S. Miguel de Entre-os-Rios, que só no século XIX foi incorporada, na de Santa Maria da Eja, para dar origem à freguesia actual da Eja, que mesmo assim tem 4,66Km2. O que significa ser pouco maior que a povoação de Areja (da freguesia da Lomba).
Em síntese, há argumentos que defendem a Civitas de ANÉGIA, como sendo Eja (Entre-os-Rios), mas também, os há, que confirmam e apontam como sendo Areja (Lomba). Fica a dúvida sobre qual seria na realidade a Civitas de ANÉGIA. Pode-se ainda por a hipótese, de neste extenso território de Anégia terem existido duas Civitas, ainda que de grandeza diferentes, em que uma ficaria a norte do rio Douro e a outra a Sul deste rio. Por este ponto de vista, teríamos a norte: a Civitas da Eja e a Sul, a Civitas de Areja (ambas referidas como civitas de Anégia).
Entretanto, pretende-se aqui apresentar uma outra versão ou visão sobre a centralidade a sul do território de Anégia, consciente que esta suposição. Também é passível de discordância. Todavia, a interpretação e as premissas que se pretende trazer a lume, são as seguintes:

- “Se o territorium de Anégia se estende por ambas as margens do rio Douro – ficava aquém e além Douro”;
- Também ficava dentro do território de Anégia, todo o território que teria sido uma grande quinta/Villa romana, e mais tarde seria, a Villa de Mellares;
- Esta Villa de Mellares, também compreendia uma área que se estendia, por ambas as margens do rio Douro – tinha território aquém e além Douro;
- De todos os Concelhos recentes e antigos, que remontam à época medieval, neste contexto, é a única terra que abrangia ambas as partes do rio Douro e até se situava, também numa zona central ao território de Anégia;
- Se nos lembrarmos que a freguesia da Lomba, era anexa da Vila e do Concelho de Melres, que o território de Mellares, abrangia estas duas freguesias, também nos salta (surge) na ideia, o nome do lugar de Areja;
- O termo Areja, quer a nível semântico e até em termos fonéticos, tem muita semelhança e identidade com Anégia;
- Também em termos toponímicos, há hipótese de ter origem no latim – areneca? Por esta povoação ter tido junto ao rio, uma praia de areia e cais para atracar barcos (porto), ou seja, o rio que hoje separa as terras, naqueles tempos idos, aproximava, até porque as principais vias comunicação/ “auto-estradas” da altura, seriam mesmo os rios.
- Em termos topográficos este povoado, tanto era central: às explorações mineiras das redondezas, ao território da Villa de Mellares, e este por sua vez, central ao território de ANÉGIA.
Considerando o exposto, toda esta argumentação é para defender a hipótese, de que este lugar de
Areja, podia muito bem ter sido um centro deste importante território de
Anégia (particularmente a sul do rio Douro). A não ter sido centro, pelo menos o nome
Areja, pode ter dado origem a
Anégia, da mesma forma que o
Porto, possa ter originado
Portugal; apesar de sabermos, que a capital, mais tarde se instalou em Lisboa.
O nome
Areja é muito antigo, ficou na toponímia; mas também foi usado como nome/
apelido de pessoas. Como exemplo, apresento um assento de casamento de Manuel Gonçalves com Joana Francisca, datado de 10-02-1779, em que ele é filho de Manuel Gonçalves Viana e de Isabel Francisca e neto paterno de Manuel Gonçalves
Areja e de Isabel Gonçalves, do lugar de Monte Meda (concelho de Melres).
Anégia, e o uso do nome Areja, perdurou nos tempos, apesar de nos dias de hoje ser pouco referenciado.
Outra extrapolação e dedução que se pode fazer, é que efectivamente, este lugar foi de destaque e de referência, apesar da topografia do actual lugar, não o indicar. As conquistas, por vezes levam à destruição do património construído e daquilo que por lá havia; bem como, à limpeza dos vestígios de determinada civilização.
Particularmente até em relação à Vila de Mellares, as suas delimitações da época medieval, em que os limites começavam em Sovereira de Campelo – o mesmo que Cabeço de Sovereiro, e lá terminavam. Não esquecer que Areja (Areija ou Arégia) fica nas faldas, precisamente de um
ramo da serra do Cabeço do Sovereiro.
E que ainda na actualidade, é ponto de confluência, ou de referência de várias divisões territoriais e administrativas. Então vejamos:
- É ponto de encontro da Freguesia da Lomba, (antigamente do Concelho de Melres), e hoje do Concelho de Gondomar; com a Freguesia de Pedorido, do Concelho de Castelo de Paiva; da Freguesia de S. Miguel do Mato (antigo Concelho de Fermedo) e actualmente do Concelho de Arouca, e da Freguesia de Canedo, do Concelho de Santa Maria da Feira.
- Ainda temos o encontro ou divisão administrativa do Distrito do Porto, com o Distrito de Aveiro.
- A divisão ou ponto encontro da Comarca de Arouca, com (uma das) do Porto.
- E em termos religiosos, divisão do Bispado (Diocese) do Porto, com a de Lamego.
Em conclusão, verifica-se uma centralidade óbvia, que tem este lugar de Areja, num contexto regional.
Por tudo isto, podemos constatar a importância, que este sitio tem e sempre teve. Há ainda a considerar que neste sítio do
Cabeço de Sovereiro, existiu a celebre
mesa dos Quatro Concelhos. Mesa esta, que servia, para se sentarem à volta dela, os
representantes dos Concelhos de Melres
(hoje Concelho de Gondomar), Castelo de Paiva, Fermedo (hoje Concelho de Arouca) e de Santa Maria da Feira; os quais conversavam e deliberavam, sobre as coisas de interesse desta região (território com fronteiras comuns).
Para conhecer esta Mesa, um dia desloquei-me ao possível local. Nada encontrei que se relacionasse com a dita mesa. O que encontrei, foi um monumento recente, com referência aos actuais Quatro Concelhos, e num local ali perto, mas afastado da estrada, o verdadeiro e
antigo marco de convergência dos referidos Quatro Concelhos.
No entanto no regresso, passei pela povoação próxima de Rebordelo, perguntei quem seria a pessoa mais bem informada da terra. Naturalmente fui ao seu encontro, para a abordar, sobre o que sabia, acerca da Mesa dos Quatro Concelhos.
Questionei – o que me pode dizer, sobre a localização da Mesa dos Quatro Concelhos?
A resposta, foi imediata e seca. Olhe! Se procurar, num jardim, de uma casa particular em Lavercos, vai lá encontra-la!
Fiquei estupefacto, com semelhante resposta. Mas, como é óbvio, não entraria num esquema daqueles e também Lavercos, não ficava no percurso de regresso.
Ainda sobre o Cabeço do Sovereiro, que é no
monte do Camouco (Concelho de Gondomar); diz-nos o Prof. Camilo: «...que no monte do Camouco, onde rematam os Concelhos de Arouca, Feira e Paiva,
podiam estar quatro administradores a falar uns com os outros, sem saírem de respectivo Concelho...»
Pode-se ainda pensar, que por esta importância estratégica, pela importância de rendimentos; que
Mellares ou Melres, é terra com termo antigo (
terminus antiquis); que é doada ao Mosteiro de Guimarães; é doada como presente de casamento, pelo rei D. Fernando I, a D. Leonor Teles de Menezes; esta por sua vez, doou a D. Martinho de Menezes (2º senhor de Cantanhede) e seus descendentes; de
Villa agrária, passou a
Julgado; foi constituída em
Concelho; recebeu
foral novo de D. Manuel I.
Recebe o título de
Vila; foi
Honra e Couto do Marquês de Marialva; foi palco de guerras; e já depois do Concelho extinto, foi disputada, pelos Concelhos de Aguiar de Sousa (Paredes) e Penafiel. Quisera o destino, que fosse integrada, como
Freguesia no Concelho de Gondomar, no qual, ainda hoje permanece.
Bibliografia
Oliveira, C. (1934). O Concelho de Gondomar (apontamentos Monográficos). Porto: Imprensa Moderna, L.da.
Portugaliae Monumenta Histórica. Diplomata et Chartae, Vol.I, pág. 22 e pág. 261. Lisboa, Academia das Ciências.
Santos, A. (s/d). Subsídios para uma monografia de Melres. Manuscrito.
Documentos da Internet:
http://tvtel.pt/gaiserv/livro_cale/pagina3.htm
EJA (ENTRE-OS-RIOS) a Civitas e a Igreja de S. Miguel. Carlos de Almeida e Francisco Lopes f.
Fortificações e Povoamento no Norte de Portugal (Séc. IX a XI). Mário Jorge Barroca.
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