Na história militar de Portugal houve várias guerras, com implicações para Melres e para os seus habitantes.
Existiram situações em que alguns Melrenses, foram chamados a cumprir o seu dever patriótico; outros casos houve, em que os acontecimentos, ocorreram aqui, com implicação nas suas gentes, sujeitas a necessidades e sa...
É sempre difícil precisar a origem de um determinado território e definir a sua cultura primitiva. Quanto mais longínquo pretendemos chegar no tempo, mais carregado de incertezas será o resultado e frágil o conteúdo de qualquer tese que se apresente.
Pelos vestígios, achados, estudos e correlações com os nossos vizinhos, podemos aferir de determinadas suposições ...
Esta quinta foi das maiores de Melres e situa-se mesmo no centro da Vila. Inicialmente chamou-se Quinta de Marrocos e o seu primeiro senhor foi Jorge Vieira Cabral. A área da quinta estendia-se por ambas as margens do rio Douro, a exemplo do território do próprio Concelho de Melres.
Na sucessão da quinta de Marrocos, tivemos Dona Antónia Ferraz Vieira, que a recebeu como dote de casamento e que depois em 1601, com seu marido, “vinculou esta quinta e outros bens na instituição do Morgadio de S. Tiago de Melres, com capela desta invocação na Igreja Matriz de Melres”.
A Quinta de Marrocos que tinha uma modesta casa de lavoura, com a instituição do Morgadio, vai ficar com um solar e com a casa anexa para os caseiros, a fim de conseguirem melhor rentabilidade das propriedades e para terem também melhores condições de habitabilidade.
Este Palácio das Sereias por ter uma localização privilegiada sobre a zona ribeirinha do Porto, aquando de um grande surto de peste, as autoridades da época decidiram mandar edificar ao lado do palácio, um marco de referência e limite para os barcos e navios que entrassem naquela barra do Douro.
O objectivo principal era controlar os casos de peste que pudessem entrar no Porto por via marítima e fluvial. Para que os comandantes das embarcações tivessem um ponto de referência, com boa visibilidade, mandaram então construir uma pirâmide de granito, encimada por uma esfera armilar e com uma bandeirinha, precisamente ao lado do palácio, como já ser referiu.
Nas embarcações que entrassem na barra do Porto e que se desconfiasse que nelas poderiam vir pessoas com sintomatologia de peste, o comandante da embarcação orientava-se por aquele marco ou bandeirinha, para estabelecer o limite onde devia fundear o navio e solicitar que os inspectores sanitários viessem a bordo fazer o respectivo diagnóstico médico.
É precisamente esta pirâmide de granito e a respectiva bandeirinha, utilizada para regular a entrada dos barcos na alfândega e cais da ribeira, que vai originar na “voz do povo”, a associação do palácio à bandeirinha e por consequência, se começar a chamar, Palácio da Bandeirinha.
Uma coisa era evidente; as pessoas que habitavam o palácio da bandeirinha, iriam começar a serem apelidadas de; “os da bandeirinha” e obviamente os seus proprietários ou donos, “os fidalgos da bandeirinha”.
Embora os senhores deste palácio (os Cunha Osório de Portocarreiro), já estivessem há algum tempo a residir no Porto, com os tumultos que houve naquela Cidade, voltaram ao seu solar de Melres – que utilizavam esporadicamente – para novamente ficarem aqui a residir.
Há um assento de baptismo de 06.05.1853 de Ana, filha legítima de João Vieira da Cunha e Eugénia Vieira da Quinta da Bandeirinha da Freguesia de Santa Maria de Melres. Portanto a antiga quinta de Marrocos, do século XVI passa a ser referida em meados de século XIX, como quinta da Bandeirinha.
Esta quinta para além do nome, da edificação do solar, da casa para o caseiro, como já se referiu, tinha um lagar de azeite e tem ainda: o laranjal próximo da habitação; um jardim logo a seguir ao portal da entrada principal, e nos muros do jardim existem as chamadas namoradeiras para as pessoas poderem conversar. No centro deste, uma árvore exótica – palmeira – que se evidencia em toda a paisagem circundante, o que permite depreender e concluir que se trata de uma quinta e de uma construção tradicional também comum a outras quintas e solares no vale do Douro.
A determinada altura vão ser desafectadas da quinta, duas parcelas denominados terroeiros, mesmo junto ao rio, que vão para a posse de parentes próximos. A quinta que ocupava uma área de cerca de 24.000 m2, vai ser vendida pelos herdeiros de D. Luís Portocarreiro à família Martelo.
Havia um azulejo no portal de entrada, alusivo à QUINTA DA BANDEIRINHA, que tinha uma inscrição em rodapé de “Fab. Carvalhinho” 1955, por conseguinte, já do tempo da última família proprietária. Desconheço todavia se o objectivo era dar a conhecer o nome da quinta, ou se foi para substituir algum que lá existiu.
Com a construção da Barragem de Crestuma-Lever, os terrenos que estavam mais junto ao rio foram submersos pela respectiva albufeira, o que naturalmente fez diminuir a sua área.
A Câmara Municipal de Gondomar vem a adquirir a maior parte da quinta da bandeirinha em 13.01.1992, dado que houve um herdeiro que ainda reservou a sua parte. A partir daqui é recuperado o solar da bandeirinha para servir de Sede à Junta de Freguesia da Vila de Melres e a parte debaixo para Museu Municipal.
Na área envolvente, foi construído um polidesportivo, ficando a zona do laranjal para lazer. O restante terreno em frente à Igreja até ao rio Douro, dá lugar a um arranjo urbanístico condizente com a nobreza do solar e do local.
Face ao que se falou da quinta da bandeirinha e da referência ao património edificado, ou seja, ao seu solar, era imperioso que se descrevesse um pouco, aquilo que faz deste solar da bandeirinha uma ex-libris desta Vila de Melres.
As pessoas que chegavam a Melres por via fluvial, desembarcavam no sítio da portagem e por esta rua do mesmo nome, que contornava a quinta da bandeirinha, vinham ao centro da respectiva Vila.
Seguindo do rio para cima, ao virar para o lado da Igreja Matriz, estava ali à nossa esquerda o lagar de azeite e no correr desta fachada encontramos o Brasão de armas do 2º Morgado da casa. Depois do jardim e abrindo mesmo em frente à Igreja Matriz aparece o portal, com o Brasão de armas alusivo ao Morgadio dos Portocarreiro e encimado por uma cruz (Cristo).
A parte exterior apresenta uma traça barroca, condizente com a época de construção e com o período em que a família Portocarreiro deu mais vida a este solar.
A fachada voltada a norte, ou que está virada para a Igreja é a que apresenta maior distinção, pela sua dupla escadaria, a cornija e cachorros, pelas suas sacadas e portas, que são adornadas com pedra de granito.
No que toca à parte rural da casa e as linhas simples da arquitectura do solar, talvez não justifiquem descrição pormenorizada, apenas se destaca a cornija, mas no entanto os tectos barrocos em talha, já o justificam sobremaneira porque são únicos no Concelho de Gondomar e nas redondezas.
Em síntese, a quinta da bandeirinha e particularmente o solar que também podia ser chamado casa do Capitão-Mor, porque ali nasceram e residiram os primeiros a desempenhar tal cargo, bem como uma plêiade de ilustres personalidades que lhe estão associadas são dignas de memória e de referência.
Especificamente em relação ao solar, a sua preciosidade são os tectos em talha barroca. No que toca à finalidade e uso como sede de autarquia, acho que não podia ter melhor destino, tanto para perpetuar a sua história, como para servir o interesse público e o bem comum.
Foi construído segundo o modelo tradicional português, em que a sua forma de “gamela” ou vulgarmente designada de masseira, tem uma variação de ângulos invulgar, o que o torna muito peculiar.
A madeira utilizada é o castanho, a sua traça e forma como foi produzido é muito regular, com pormenores de grande perfeição e talento artístico.
O tecto é adaptado à medida do salão, que pelas suas características parece indicar ser para receber visitas, desfrutar do calor de uma lareira e com motivos musicais e lúdicos, fazendo pensar tratar-se, de um salão para sarau musical e convívio.
A estrutura do tecto em si é formada por vários caixotões, tipo molduras de retratos que podiam ser decorados com pinturas e desenhos.
A data que está gravada lateralmente e de forma simétrica é o ano de 1698, o que aponta para o período em que viveu o 3º Morgado da casa (1641-1719) – o qual fez justificação da sua nobreza em 1715 no tabelião da Vila de Melres.
Sobre os pormenores da talha, que saíram da mão do artista podemos referir alguns, como por exemplo:
De destacar o grande número de indivíduos a tocarem os mais variados instrumentos musicais, o que parecia fazer prever, que Melres seria uma terra e “berço” de músicos.
É de lamentar que faltem algumas peças que se perderam com o tempo por negligência e descuido, mas de salientar que o restauro a que foi submetido, pelo menos deu mais longevidade e dignidade ao que ainda resta e é digno de uma visita atenta.
Esta sala assim designada, que é relativamente pequena em relação ao salão nobre e que lhe está chegada ou apegada, era para ofício e trabalho do respectivo Morgado e que também podíamos chamar de sala de armas.
Além de estar ligada ao salão nobre, tinha uma localização privilegiada na casa e mesmo em relação à Quinta da Bandeirinha. Deste local pode-se comunicar facilmente com as divisões adjacentes e ao mesmo tempo ter uma vista sobre o portal principal da entrada no jardim e ainda visualizar toda a quinta até ao rio Douro.
Ultrapassando o enquadramento, convém lembrar que a madeira utilizada também é o castanho, mas aqui o que se adoptou foi o modelo Holandês. Isto porque assenta numa quadratura da sala e em termos de profundidade este tecto é muito mais acentuado que o anterior.
Ao centro temos um grande florão, também ladeado de grandes molduras, que por sua vez são revestidas de um rendilhado tipo da filigrana.
A representação artística de figuras é mais singela e no remate inferior tem uns ganchos que serviam para dependurar tapeçarias, ou outros objectos.
No que respeita a arte, temos representado o seguinte:
Considerando que esta obra foi encomendada pelo 3º Morgado, e considerando o aspecto ou motivo principal deste tecto – a simbologia das pedras preciosas e os rendilhados a imitar a filigrana – podemos pensar que a intenção seria a de homenagear o seu Pai, que foi Comissário do Rei «para ao galeões de ouro que se fizeram na ribeira do ouro» (Porto), para além de Capitão-Mor de Melres (1645), sendo ainda Juiz e Vereador do Senado de Melres.
Ainda se poderiam tecer outras considerações sobre os tectos em talha, mas vale bem uma visita ao local, e para os contemplar com atenção, porque as imagens ou figuras neles esculpidas, falam por si.
Elaborado por: Joaquim Gonçalves Mendes