Na história militar de Portugal houve várias guerras, com implicações para Melres e para os seus habitantes.
Existiram situações em que alguns Melrenses, foram chamados a cumprir o seu dever patriótico; outros casos houve, em que os acontecimentos, ocorreram aqui, com implicação nas suas gentes, sujeitas a necessidades e sa...
É sempre difícil precisar a origem de um determinado território e definir a sua cultura primitiva. Quanto mais longínquo pretendemos chegar no tempo, mais carregado de incertezas será o resultado e frágil o conteúdo de qualquer tese que se apresente.
Pelos vestígios, achados, estudos e correlações com os nossos vizinhos, podemos aferir de determinadas suposições ...
O Rio Douro tem a sua nascente em Espanha, mais concretamente na serra de Urbião, que fica na província de Sória. Este rio atravessa todo o norte de Portugal e tem a Foz entre as Cidades do Porto e Vila Nova de Gaia. O comprimento total do seu curso, ronda os 927 Km, sendo que, os últimos 325, são em território nacional.
O seu nome de entre outras possibilidades, pode ter derivado do latim (Durius), ou seja Duro, dadas as suas características sinuosas e tortuosas, o aspecto rude das paisagens que contorna, nomeadamente os fraguedos e escarpas do Alto Douro.
A sua navegabilidade foi sempre difícil, repleta de perigos e só homens determinados e experientes, ousavam tal façanha.
O Rio Douro foi uma fonte de riqueza para a Região e para esta Vila de Melres. Antigamente, fazia mover azenhas e moinhos, permitia a pesca, quer de barco, quer nas pesqueiras, irrigava os campos, particularmente o vale da Ribeira, tornando-o muito fértil.
Se nos reportarmos às Inquirições de 1258, ordenadas pelo D. Afonso III, podemos verificar já naquela altura a importância do rio para o povo de Melres. A determinada altura da inquirição aparece o seguinte: «Interrogatus de flumjne dorij dixit quod quot barci ibi piscaverint in termino de meleres debet dare vsque marcium mediatum quartem de quantis saualis et de quantas lampreis ibi mataurit»...
A tradução pode ser mais ou menos esta: “ Interrogado sobre o rio douro disse que os barcos que pescarem no termo (território) de Melres devem dar a partir de meados de março, uma quarta parte de quantos sáveis e de quantas lampreias aí matarem (pescarem) ”...
Mais tarde no Foral do Concelho de Melres (de 15.09.1514), aparece novamente o tributo sobre a pesca:
-“ E pagam se mais na dita terra dos saves e lampreas que se matam nos arinhos o quinto, a saber, de cimquo peixes hum... e chama se este dereito de carneiro...”.
- A tradução é esta: “E pagam-se mais na dita terra dos sáveis e lampreias que se matam (pescam) nos areinhos o quinto, a saber, de cinco peixes um… e chama-se este direito de caneiro...”.
Portanto se anteriormente se pagava o quarto, nesta altura passaram a pagar/entregar um quinto daquilo que pescavam.
Este imposto era referente à pesca e embora o Foral não se refira à portagem, esta também era um direito do Senhorio, que sabemos ter sido aplicada durante longos anos. Sobre o direito de portagem, existe uma petição de Dom Fernando Menezes – Senhor de Melres, ao Rei D. Duarte I, a queixar-se da perda e dano por quantos passavam na terra de Melres e não pagavam nenhuma «passagem» / portagem. O Rei ao ver tal requerimento e querendo-lhe fazer “graça e mercê” mandou que lhe fossem dados esses privilégios por carta escrita por Gonçalo Caldeira, na cidade de Coimbra aos 22 dias de Fevereiro da era de César de 1436 anos; ou seja, ano 1398 da era de Cristo.
Se antigamente a relação dos habitantes com o Rio Douro era mais vocacionada para a pesca, a determinada altura passou a ser o comércio e transporte de produtos e na actualidade, com a construção da Barragem de Crestuma/Lever, faz-se mais o aproveitamento hidroeléctrico e explora-se a vertente turística.
No futuro para além destas vertentes já exploradas, uma vez que a pesca é mais desportiva, penso que a sua riqueza, só poderá ser ligada à exploração turística e a outras modalidades de recreio e competição, nomeadamente ao remo e a canoagem .
Desde tempos imemoriais que o homem sentiu necessidade de recorrer a um meio para poder pescar e para se poder deslocar ao longo dos cursos dos rios. Para esse fim, o homem foi construindo diferentes tipos de embarcações, as quais foi adaptando às características do rio e das suas necessidades.
Se inicialmente a pesca e a necessidade de utilizar o rio como via de comunicação – particularmente para se deslocar à Cidade do Porto, era o principal motivo -, a determinada altura com a plantação das vinhas no Alto Douro e com a instituição da Região Demarcada do Douro, impôs-se a navegação do rio para fazer o comércio do designado vinho do Porto.
A embarcação que foi criada e adaptada para o transporte das pipas que continham o referido néctar, foi chamada de Barco Rabelo, ficando deste modo, esta tradicional embarcação, historicamente ligada ao Rio Douro.
As características principais do Barco Rabelo, permitiam contornar as dificuldades de um rio de montanha e por isso o seu fundo era chato, dispunha de uma vela quadrada a meio e para a ré, tinham as apegadas, o castelo onde é manejada a espadela e um longo remo para governar a embarcação.
A tripulação era constituída por 6 ou 7 homens e as de maior dimensão poderiam ir de 11 a 16 marinheiros. O tráfego e as dimensões das embarcações, passaram a ser bem definidas a partir de 1792, com a legislação pombalina, nomeadamente pelas Leis da Companhia, como eram conhecidas.
Os Barcos Rabelos no passado eram o principal meio de transporte, pelo menos o mais acessível, a ligar a Cidade do Porto às terras de Riba-Douro. A forma imponente e majestosa como deslizava nas águas resplandecentes ou através de uma luz coada, sempre lhe deram um equilíbrio no seu conjunto e fizeram dele um símbolo ímpar e típico do Rio Douro. Esta embarcação tornou-se um ícone, ou melhor um símbolo heráldico da região e por isso figura em alguns brasões das freguesias ribeirinhas do Douro,tornando-se por conseguinte no brasão de armas da região, como já alguém escreveu.
Na construção destas embarcações entrava essencialmente a madeira de pinho e castanho, bem como, para a feitura das suas velas o linho, que aqui nesta Vila de Melres era cultivado no Vale da Ribeira e depois nos engenhos que por aqui haviam, a exemplo do da imagem no lugar de Moreira, que era tratado e depois utilizado para diversos fins.
Acerca dos Barcos Rabelos muito haveria a contar, assim como de outras embarcações típicas desta zona, como o Rabão e o Valboeiro. Se o seu esplendor de navegabilidade e de imagem se deve á sua arquitectura, no entanto a técnica empregue, saiu de mãos tão rudes e calejadas, como as do Mestre Arnaldo Pereira, que o eleva em valor e solenidade.
Ao longo das margens do Douro, foram-se armando estaleiros, para que os Mestres Construtores, com a ajuda de artistas carpinteiros e até dos próprios marinheiros, se abalançassem em empreitadas de construção de Rabelos, que em média levariam dois meses, desde a sua concepção até serem lançados ao Rio Douro.
É também de salientar, que era era possível construir dois a trés barcos por semana de menor porte, como os Valboeiros, dado que estas pequenas embarcações eram mais para a pesca e transporte de pessoas entre as margens. Portanto como não eram para transporte de grandes cargas, a sua arquitectura era mais simples e a construção mais rápida.
Contudo é de referir ainda o Barco Rabão, que era empregue para o transporte de carvão, que se extraía nas minas do Pejão, sendo depois conduzido até ao Porto, o que também liga o povo de Melres ao rio e á actividade mineira.
Chegado a este ponto, num artigo deste cariz era imperioso e obrigatório falar num dos maiores Mestres Construtores de Barcos da região – O Mestre Arnaldo Pereira.
Não é objectivo deste artigo apresentar uma biografia do Mestre, mas sim lembrá-lo e fazer uma merecida homenagem, como aquela que a Junta de Freguesia de Melres, em vida do Mestre lhe tributou no salão nobre da sua antiga sede.
Quando nos referimos ao Mestre Arnaldo, todas as pessoas que o conheceram, reconhecem as suas humildes características, mas também o seu enorme talento, sabendo que ao longo da sua vida, ele construiu centenas, talvez largas centenas de embarcações, para navegação no Douro e não só.
Pese embora o Mestre não seja originário de Melres, ele cedo se iniciou nas lides da construção de barcos, tendo-se radicado em Melres na idade adulta e aqui vivendo por longos e bons anos. É curioso que a designação de Rabelo é aglutinadora em toda a região do Douro, enquanto outras embarcações também típicas, mas menos relevantes são especificas de determinadas localidades, consoante o local de origem, como exemplo o Barco Valboeiro ser de Valbom e o barco de Avintes, igualmente de Avintes.
Tudo isto a exemplo de outras regiões do país, como seja, o caso do Barco Moliceiro ser característico da Ria de Aveiro.
O que nos faz interrogar é o facto de o Mestre Arnaldo, além de construtor destes barcos já referidos, também idealizou por si próprio muitos mais, que depois construiu. Esta capacidade de autodidacta aliada á da autoria de barcos genuinamente seus, merecia a atribuição da patente de Barco de Melres, o que ficou por cumprir.
Como a escrita já vai longa e como as imagens “falam por mil palavras”, de seguida apresenta-se uma galeria com imagens dos esboços e estudos que o Mestre Arnaldo elaborava antes de construir as suas embarcações. É de salientar que este espólio, está contido num caderno, onde o Mestre fazia os seus desenhos e que ainda em vida ofereceu ao senhor Presidente da Junta, que recentemente me ofereceu a mim, sabendo que eu seria um guardião e fiel depositário de tal legado e por conseguinte divulgaria alguns dos muitos desenhos, como aqui apresento.
Espero ter trazido ao conhecimento dos meus conterrâneos, algumas lembranças sobre o Rio Douro, nomeadamente a pesca como principal actividade de tempos idos e as embarcações que cruzaram estas águas, como o Rabelo, o Rabão e o Valboeiro.
Também de não somenos importância, trazer á memória a figura do Mestre Arnaldo Pereira e divulgar alguns dos seus desenhos/projectos, que concebeu para as embarcações que ele e a sua equipa construíram.
Finalmente, acicatar e incentivar algumas consciências mais adormecidas, para idealizarem e explorarem estes temas, e que dessa reflexão resulte novos dados e nova matéria para completar esta, aqui divulgada.
Autoria: Joaquim Mendes